Formada em Desenho Industrial e em Ciências Sociais, fez mestrado no IEB/USP e doutorado em Ciências Sociais no IFCH/UNICAMP. Pesquisa gênero, menstruação e antropologia da ciência e tecnologia, e integra o laboratório Labirinto.
Venho de uma família simples, de pessoas trabalhadoras. O ensino superior não era uma coisa comum, ainda mais entre as mulheres. Quando estava terminando o ensino médio, tinha um amigo mais velho que estudava design, e ele me levou com ele para ver algumas aulas e eu fiquei encantada. Na mesma época a USP abriu o curso de design, mas eu nem cheguei a pensar e prestar. Não prestei nenhuma universidade pública. Não é que eu considerei prestar e achei que não ia passar. Eu nem cheguei a considerar, nem ninguém próximo a mim falou para eu fazer isso. Só estava completamente fora do meu campo de possibilidades. Eu achava que o único jeito era conseguir uma bolsa em uma universidade particular, e foi isso que fiz.
Consegui uma bolsa integral para cursar filosofia, que era uma matéria na escola que eu sempre gostei muito. Ao mesmo tempo consegui uma bolsa pelo PROUNI para fazer Desenho Industrial. Acabei indo pelo segundo caminho, porque achei que podia me trazer mais chances de conseguir um bom trabalho. Eu adorei o curso. Aprendi muito, desenvolvi habilidades manuais, conhecimentos de softwares e pensamento projetual. Tinha interesse por pesquisa, mas era quase inexistente na universidade, e como eu já era bolsista, não podia ganhar bolsa de iniciação científica (o que não faz o menor sentido). Foram anos puxados, trabalhando e estudando.
No fim do curso, percebi que tinha algo de errado acontecendo. Vários colegas meus tinham conseguido ótimos trabalhos, estavam trabalhando na área e ganhando bem. Eu e meus amigos, que também eram bolsistas, não. Todos nós estávamos subempregados, mesmo com diploma de uma universidade renomada. O que estávamos ganhando de salário mal dava para pagar uma parcela da mensalidade que o curso custava. Não fazia sentido. Fazer a faculdade tinha sido uma grande esperança para mim e para minha família, mas no fim das contas eu estava infeliz, cansada, e a cada dia que passava com mais raiva de trabalhar tão suado para ver o patrão enriquecendo cada vez mais. Me enlouquecia pensar que eu e os outros trabalhadores pegávamos 3 ou mais horas de transporte público por dia, enquanto o patrão estava com suas crianças escolhendo onde ia passar as férias, Miami ou Orlando.
Resolvi fazer um curso técnico em Museu para tentar migrar para a área da cultura, e consegui um trabalho como educadora em um museu. Nunca pensei em trabalhar com educação, mas fiquei apaixonada. Organizações culturais e do terceiro setor têm muitos problemas, explorações de outra ordem, mas saber que eu não estava diretamente enriquecendo ninguém me aliviava. No museu, conheci várias pessoas que tinham estudado ciências sociais, a maioria delas na USP. Conheci doutoras e doutores em sociologia e ciência política. Conheci pessoas que pesquisavam. Minha chefe, a diretora do acervo, era antropóloga. Conversando com essas pessoas é que me foi atiçando a vontade de fazer uma segunda graduação e estudar ciências sociais. Comecei a entender que, quem sabe, eu poderia ser uma pesquisadora, e ganhar dinheiro para trabalhar com isso. Resolvi fazer a segunda graduação, prestei vestibular na USP e passei. Lembro que fiquei muito feliz, saí pulando pela casa. No fim, foi bom fazer esse curso mais velha, com habilidades que me sustentaram financeiramente por bastante tempo. Eu entrei bem certa do que queria, e era pesquisar.
Na verdade, nos dois casos, não escolhi o programa, mas sim a orientação. O Stelio Marras no mestrado em Culturas e Identidades Brasileiras no IEB/USP, e a Daniela Manica no doutorado em Ciências Sociais no IFCH/UNICAMP. Fui para onde as pessoas que eu queria que me orientassem estavam, e acho que fiz uma boa escolha. Eu já estava seguindo uma trajetória não disciplinar, e coincidentemente (ou não...) os meus orientadores de mestrado e doutorado estavam em programas interdisciplinares. Fui entendendo que este era meu espaço, o que me trouxe uma certa liberdade para transitar entre espaços disciplinares e ir compondo os conhecimentos conforme as questões que foram aparecendo nas pesquisas.
Ainda que possa parecer um trabalho solitário, a pesquisa científica é profundamente enraizada na participação em comunidades. Momentos de solidão existem, e são necessários, mas são momentos pontuais. A nossa pesquisa é sempre parte de um coletivo maior, e sempre estamos às voltas com nossos “pares”. São essas pessoas que vão avaliar nossos trabalhos, permitir ou não que tenhamos nossos títulos ou nossos trabalhos publicados. Para mim, foi muito importante encontrar pessoas cuja pesquisa dialogasse minimamente com o tema e o campo nos quais eu estava querendo trabalhar, mas também pessoas com as quais eu sentisse que havia um ajustamento entre o modo que essas pessoas trabalhavam e o modo como eu gosto de trabalhar. E isso passa também por sentir que há consonâncias políticas sobre o que é e o que deve ser produzir conhecimento científico.
Neste processo, foi essencial realizar disciplinas como aluna especial com esses professores antes de prestar o processo seletivo, como forma de conhecer mais sobre eles, e de eles conhecerem mais sobre mim também. Eu já estava fazendo uma aposta muito arriscada, mais velha, com uma vida para sustentar, transicionando do “mercado de trabalho” para o trabalho acadêmico, cansada de ser explorada por patrão, então acho que valorizei muito esse tempo de conhecer e escolher bem onde e com quem eu iria trabalhar, para evitar sofrimentos futuros.
Fiz graduação na Universidade de São Paulo. No começo, minha maior surpresa foi perceber que meus colegas de turma eram, em sua maioria, ricos. Mas ricos mesmo. Quando eu entrei ainda não havia sido implantado o sistema de cotas, e o curso de Ciências Sociais era o segundo curso com pessoas de maior renda naquele campus. Eu havia feito minha primeira graduação em uma universidade particular, e lá foi a primeira vez que convivi com pessoas de classes sociais mais altas, mas não se comparou com o que vivi na USP. Por ser um curso voltado para pesquisa, era muito pulsante para mim a disparidade de capital cultural. Nas primeiras semanas percebi que muita gente já se conhecia, pois haviam estudado juntos na mesma escola. Era comum voltar das férias e meus colegas contarem sobre os museus que haviam visitado em algum país da Europa. Vários já tinham tido contato prévio com as leituras obrigatórias, e algumas vezes já tinham lido o texto na língua original (francês, alemão...) e comentavam sobre as diferenças com as traduções em português.
Ainda que de forma velada, muito “bem educada” e intelectualizada, o ambiente geral de toda a graduação foi muito competitivo. Para quem, como eu, desejava seguir carreira acadêmica, essa competição era ainda mais explícita, já que existe toda uma sociabilidade que é necessária para, por exemplo, se integrar a um grupo de pesquisa. Quando enfrentava essa disparidade social, me sentia diminuída em muitos sentidos. Sentia um grande senso de injustiça, e uma necessidade de correr atrás de coisas que para muitos dos meus colegas eram básicas, como falar uma segunda língua. E ainda por cima eu trabalhava muito, e fazia a graduação meio que do jeito que dava. Cheguei a ouvir mais de uma vez de professores que eu era “boa”, mas que fazia “muita coisa”. Fui aprendendo a responder que não fazia muita coisa porque queria, mas porque era obrigada.
Lá pro fim da graduação as coisas já estavam um tanto diferentes. Com o estabelecimento das cotas, o corpo discente estava mudando, gerando tensionamentos novos nas aulas. Também fui aprendendo a navegar por entre as margens e encontrar lugares e pessoas que me acolheram, me ajudaram em minhas dificuldades e valorizaram minha experiência de pessoa trabalhadora.
De tudo! Difícil dizer uma parte específica, eu gosto do processo, e mesmo que tenham partes mais trabalhosas ou emocionalmente mais desgastantes, quando o tempo passa e as coisas assentam eu sinto que esses momentos intensos produziram coisas interessantes.
Mas ultimamente estou colocando bastante atenção em uma parte específica da prática de pesquisa que para mim não está bem resolvida no meu fluxo de trabalho, que é a utilização de um “caderno de campo” digital e hyperlinkado. Tenho experimentado softwares de nota para isso, como o Obsidian, e pensando em como transformar partes da pesquisa que, quando aprendi na faculdade, eram bem manuais em uma espécie de “artesanato” digital. Me interesso muito por organização do conhecimento, e acho que a digitalização da pesquisa traz novos desafios e possibilidades que me instigam muito. E por digitalização não estou falando somente de utilizar dados produzidos na internet, mas de um processo mais profundo de substituição de livros, textos impressos, cadernos escritos à mão, enfim, da transformação da própria materialidade da pesquisa.
Hoje, tenho mais de uma década de pesquisa guardada em forma de memória eletrônica, que no fim das coisas é “só” energia elétrica estocada. Tudo isso é muito frágil, e eu já perdi muita coisa importante porque um HD pifou ou algo assim. Também me incomoda muito pensar que muitas das coisas que produzi ganhando bolsa, dinheiro público, estão guardadas em um banco de dados privado, o Google Drive. E não só eu, mas grande parte da produção de pessoas que pesquisam nas universidades públicas. Enfim, esse é um problema que estamos apenas começando a enfrentar.
Na graduação de Desenho Industrial teve uma disciplina preparatória para o trabalho de conclusão de curso, com o objetivo de desenhar o projeto de pesquisa. Na verdade, o TCC não era bem uma pesquisa acadêmica, mas sim o desenvolvimento de um projeto. E no caso da minha habilitação, um projeto de produto. Idealmente, no fim do TCC teríamos um texto relatando as etapas do desenvolvimento e um modelo funcional do produto desenhado. Lembro-me do professor que deu essa matéria preparatória ser muito enfático de que nosso projeto deveria responder a um problema real que nós conseguíssemos não somente identificar, mas que também tivéssemos algum tipo de acesso direto ao problema, o que significava acesso aos usuários, consumidores, produtores, enfim, a alguns pontos da cadeia de produção e distribuição.
Na época eu trabalhava como produtora cultural na Erótika Fair, uma feira de produtos eróticos. Estava em constante contato com proprietários de sex shops, fabricantes de sex toys, e com o público usuário também. E, para mim, tinha um problema bem óbvio acontecendo diante dos meus olhos: os vibradores eram muito toscos, mal projetados mesmo. A maioria era feita de materiais muito ruins, quebravam fácil, eram feios mesmo, e eram pouquíssimos... anatômicos. Observando como era o mercado, foi fácil identificar que a maioria dos donos de sex shop e das poucas fábricas que tinham no Brasil eram homens. Para mim, parecia que aqueles produtos tinham sido projetados sem a mínima participação do público-alvo, que eram as mulheres.
Encontrei um professor muito bom e corajoso o suficiente para topar orientar esse projeto, o que para mim foi uma surpresa, já que estava cursando uma universidade presbiteriana. Sabia que era a primeira pessoa na história do curso a abordar este tema, e isso de certa forma me motivou a produzir um trabalho com bastante base teórica, para me blindar de possíveis críticas. Ao mesmo tempo em que prototipava um massageador focado no clitóris, comecei meio que sozinha a me enfiar em leituras teóricas, pois o curso era muito mais focado no mercado de trabalho e tínhamos aprendido poucas ferramentas para pesquisa acadêmica. Foi buscando sobre a história dos vibradores que acabei caindo em um mundo totalmente novo e fascinante para mim, que foram as leituras sobre gênero, biomedicina, controle do corpo, sexualidade, erotismo e tecnologia. Lembro de ler coisas como Foucault, Bataille, Marcuse, Rubin, Butler... sempre com muito interesse, mas não “entendendo” absolutamente nada. Na época achava isso, que eu lia, lia, lia e relia e não entendia nadinha, mas hoje sei que essas primeiras leituras, livres, curiosas, difíceis, foram os primeiros passos em um processo de décadas de aproximação com temas que mais tarde seriam o centro de meus interesses.
Na graduação em Ciências Sociais não houve trabalho de conclusão de curso. Para quem desejava seguir a carreira acadêmica, tinha um incentivo para fazer iniciação científica.
Ficção científica. E o movimento punk. E a Donna Haraway também. Quando resolvi cursar Ciências Sociais eu estava bem certa de que queria fazer pesquisa, e bem certa também do tema que gostaria de abordar. Queria seguir a trilha aberta no TCC e continuar pesquisando sobre gênero, sexualidade e tecnologia. Fui modelando minha grade de optativas conforme isso, fazendo matérias na antropologia e na sociologia, e matérias do campo da antropologia das formas expressivas (cinema, fotografia, performance), que eram coisas com as quais eu tinha mais familiaridade.
A partir dos meus contatos dos anos que trabalhei dentro do mercado de produtos adultos, tinha algo que me deixava bastante curiosa: eu tinha conhecido várias mulheres jovens que eram feministas e atrizes pornô, do gênero “alternativo”. Por bastante tempo esse foi o centro do meu interesse, e comecei a buscar professoras para me orientar em uma iniciação científica sobre o assunto. Cheguei a conversar com algumas, mas meu interesse estava mais nas tecnologias que elas usavam e no modo como produziam os filmes, tipo “faça-você-mesmo”, do que em questões clássicas do campo de estudos de gênero. Vi a oportunidade de testar esse tema na disciplina optativa de metodologia em antropologia. Fiz uma etnografia junto a algumas dessas mulheres. E foi mais difícil do que eu imaginava. Durante esta pesquisa, um casal de interlocutores começou a brigar na minha frente, a partir das perguntas que eu fazia, e terminaram o relacionamento que tinham. Isso me afetou muito, e depois de escrever o relatório eu decidi que não daria conta de seguir nesse campo.
Esse foi um momento complicado, fiquei algum tempo à deriva, me sentindo perdida já que tinha entrado na graduação muito determinada a estudar isso. Já tinham passado dois anos de graduação, e cheguei a pensar em largar o curso. Segui, tristinha, mas segui. No semestre seguinte, durante a disciplina de Antropologia Contemporânea, uma das leituras discutidas foi o Manifesto Ciborgue, de Donna Haraway. Comecei a ler muito animada, porque parecia juntar coisas que eu gostava muito: ficção científica e “ciência, tecnologia e feminismo socialista no final do século XX” (o subtítulo do texto).
Por uma coincidência maravilhosa do destino, uma noite eu estava lendo o texto e em uma pausa abri o facebook (naquela época era o que as pessoas usavam). A primeira coisa que eu vi foi a foto de uma mão com a legenda “finalmente implantamos o chip”. A foto era de uma pessoa que eu não conhecia, com um amigo em comum marcado. Acho que foi a empolgação por estar lendo Haraway, mas eu fiz um textão e comentei impulsivamente na foto, dizendo que eu era designer e que achava muito doido o ciborgue e as coisas entrando literalmente nos corpos das pessoas. Algumas horas depois, o dono da foto me mandou uma mensagem, me convidando para participar de uma competição de “design biomolecular”, e me contando sobre um clube de biohackers interessados por engenharia genética e biologia sintética. Eu não me lembrava nem da diferença entre RNA e DNA, mas naquele momento eu sabia que tinha achado meu novo tema.
Comecei a frequentar o clube e participei de várias competições com esse grupo. Iniciei uma iniciação científica com a intenção de fazer uma etnografia sobre a participação em uma dessas competições, mas estava sem bolsa e não concluí a iniciação. Aproveitei o que tinha para fazer o projeto do mestrado. Fiz trabalho de campo de 2015 a 2018, e ainda hoje participo ativamente das comunidades com as quais me envolvi. No mestrado, acabei focando a escrita na experiência de construção de uma microcentrífuga de bancada do zero, trabalhando questões sobre ciência aberta e cidadã, cultura hacker, hardwares abertos para ciência e estratégias para permanecer fazendo ciência de forma alegre, criativa. Nunca pensei em pesquisar dentro do campo de Antropologia da Ciência e Tecnologia, mas encontrei aí muitas das coisas que já me interessavam no design, agora sob um outro olhar. Fui fincando pé no campo. O Érico, o dono da foto e da mão com o chip, se tornou meu principal interlocutor e alguns anos depois se tornou meu companheiro.
Eu tinha gostado muito da experiência de fazer uma etnografia dentro do campo da Antropologia da Ciência e Tecnologia, mas sentia que precisava me reaproximar das questões que me acompanhavam desde o design, e que foram o principal motivo que me levaram para cursar Ciências Sociais. Queria me aprofundar nas críticas feministas da ciência e tecnologia, e retomar o olhar para o corpo, gênero e sexualidade. Em 2018 conheci uma coletiva de parteiras que havia criado um laboratório de ginecologia autônoma itinerante, o XXT Lab. Elas tinham muito interesse pelas práticas hackers, e comecei a acompanhar de perto o trabalho delas, já fazendo um pré-campo. Ao mesmo tempo, conheci o trabalho da minha orientadora, e fiz uma disciplina dela sobre gênero e tecnologia como aluna especial. No fim de 2019 prestei o doutorado com um projeto focado no trabalho realizado no XXT Lab, focando especialmente nas oficinas relacionadas com a percepção e gestão da menstruação e da fertilidade. Passei, e as aulas começaram em março de 2020. Fui apenas na primeira aula. Poucos dias depois a quarentena se iniciou.
Como quase todo mundo que estava fazendo pós-graduação nesse momento, vi meu projeto de pesquisa se desfazer. Depois de alguns meses perdida, me dei conta de que meu campo simplesmente não existia mais: a coletiva não teve condições de continuar suas atividades online, e interrompeu seu funcionamento. Por um tempo pensei em insistir no tema e pesquisar as iniciativas online de ginecologia autônoma, mas por uma questão de saúde mental eu me afastei das redes sociais. Depois de meditar bastante sobre qual era meu real interesse no trabalho realizado no XXT Lab e o que ainda restava disso acessível para mim, cheguei à conclusão que o que tinha ainda bem perto de mim e que não ia me escapar nesse momento tão anormal era a menstruação.
Consultando minhas anotações antigas e me debruçando sobre o trabalho de Daniela Manica, minha orientadora, e em leituras em Etnologia Ameríndia, fui entendendo melhor o que me fascinava na menstruação e no sangue menstrual. Acho que minha formação em design me fez gostar de prestar bastante atenção à materialidade, às redes de relações que são necessárias para que as coisas existam e ao que essas coisas provocam no mundo. A menstruação e o sangue menstrual tensionam materialmente questões como gênero, sexualidade, tecnologia. Também são materiais muito interessantes para se trabalhar questões clássicas da antropologia, como os polos natureza e cultura.
Foi a lembrança de uma fala que assisti em um congresso, em uma mesa de antropólogas indígenas, que me fez conseguir remendar o interesse por menstruação com produção de conhecimento científico e o campo dos estudos sociais da ciência e tecnologia. Uma das antropólogas disse que a academia não respeitava o sangue das mulheres indígenas. E contou que quando ela estava menstruada, fazia resguardo, ou seja, não trabalhava. E por isso, era vista como alguém “menos produtiva”. Ela seguiu dizendo que não queria ser aceita como menos produtiva, mas queria que a ideia em si de produtividade fosse repensada. A partir dessa memória, decidi por pesquisar sobre o desaparecimento de experiências de menstruação que antropólogas vivenciaram durante o trabalho de campo, em especial quando estavam pesquisando em território indígena. Desta forma, meu interesse era discutir os impactos na criação de conhecimento científico da idealização do corpo de quem pesquisa, um corpo que, dentre outras coisas, não menstrua, é branco, masculino e ocidental.
Construa um arquivo digital bem organizado de tudo que ler e produzir durante a graduação! Peguei uma transição durante meu curso: no começo, só tínhamos acesso aos textos na biblioteca ou na xerox. Acumulei caixas de textos xerocados que foram doados depois, pois eram difíceis de consultar. Mas lá pro fim da graduação os professores já estavam disponibilizando os textos em pdf e organizando os textos em pastas online, e os trabalhos começaram a ser entregues do mesmo modo. Ter uma documentação sistematizada do que eu li e produzi só se tornou uma preocupação para mim lá pro meio do mestrado, e sei que perdi muita coisa nessa.
Então, meu conselho é que gaste um tempo testando formas de organização de arquivos, estudando e aprendendo softwares de organização de notas e análise de dados qualitativos (Google Keep, Obsidian, Atlas.ti), softwares de biblioteca digital (Zotero), e recursos digitais que podem ajudar muito durante a formação, como leitor de PDF em voz alta e softwares de transcrição (ambos bons para momentos em que ficamos travados em ler e escrever... sim, isso acontece). E também que se prepare para gastar, com o tempo, um dinheiro em equipamentos, como HDs externos, um bom computador, leitor de ebook (esse eu não me adaptei, mas tem gente que gosta).
Modificou profundamente. Acho que me ajudou a encontrar modos de organizar raivas, as minhas e as raivas compartilhadas. Consegui nomear algumas das minhas dores, e das dores que existem ao meu redor. Me ajudou a construir bases mais firmes para seguir estando no mundo com curiosidade. Como qualquer outro estudo, acadêmico ou não, são conhecimentos que me formam e me ajudam a caminhar.
E em termos práticos, de dia a dia, o trabalho acadêmico dentro de universidades públicas me abriu portas que, sinceramente, transformaram minha vida. Às vezes paro para pensar, e mal consigo dimensionar tudo o que esse movimento trouxe para minha vida. Começando por conseguir sair de condições de trabalho de ultraexploração, e pela primeira vez na minha vida sentir que tenho um trabalho onde não sou cotidianamente humilhada e diminuída em minha capacidade de pensamento. Pelo contrário. Foi também através do trabalho acadêmico que consegui viajar, dentro do Brasil e para fora, conhecer outras culturas, pessoas e realidades. Meu horizonte se expandiu, e minha possibilidade de ação e movimentação também. Encontrei muitas pessoas incríveis, professores, amigos, parceiros, pessoas com as quais venho construindo relações de troca, construção, camaradagem, amizade e amor.
Ao mesmo tempo em que sou profundamente grata a tudo isso, também reconheço as armadilhas colocadas no meio do caminho. Sei que um pouco de mim se perdeu nesse processo também. As conversas com a família ou com amigos do bairro ficaram mais difíceis. Eu mudei muito. Na verdade, eu não sinto que mudei, mas que finalmente encontrei um ambiente em que eu pudesse desenvolver o que estava pulsando dentro de mim. Me entristece saber que o espaço da academia é tão excludente, que infelizmente somos, nós que fomos historicamente privados desse espaço, pontos fora da curva, que ainda falta bastante para a universidade ser realmente universal e abraçar educações e conhecimentos outros que não a erudição intelectualizada de matriz eurocentrada. Mas é isso, seguimos de dentro da “barriga do monstro”, lutando para não sermos digeridos e assimilados.
Já faz alguns anos que fui deixando de usar redes sociais, hoje só tenho o Whatsapp mesmo. Então, faço meu trabalho circular principalmente participando de eventos acadêmicos, redes de pesquisa e projetos de extensão e comunicação cultural e científica. É um trabalho bem corpo a corpo, e eu gosto disso! Sempre gostei de participar de congressos, reuniões, seminários. Conhecer o trabalho das pessoas e apresentar o meu, trocar. Para mim, foi e é a forma que encontrei para entender melhor a dinâmica de cada campo (e os subcampos também), quais as questões de pesquisa na agenda, quais as abordagens teórico-metodológicas que estão sendo feitas, quais as aberturas e limites do campo. Aos poucos fui encontrando coletivos com os quais eu me relacionei de forma mais proveitosa, e venho mantendo esse contato, participando consistentemente ao longo dos anos dos encontros de redes e associações nacionais e internacionais (ReAct, ESOCITE, 4S). Além disso, procuro participar ativamente do laboratório que faço parte, o Labirinto, e conhecer de perto o trabalho de outros laboratórios que compõem as redes e associações que participo.
Sempre me interessei por extensão universitária e divulgação cultural e científica, e nos últimos anos tenho participado de iniciativas nesse sentido. São projetos coletivos, um modo de trabalho que eu gosto bastante. Acredito que trabalhar assim, junto com outras pessoas e voltado para fora dos muros da universidade, é um bom modo de fazer com que as coisas circulem, ganhem outra potência. E, por fim, mais recentemente tenho me engajado também em produzir publicações em revistas acadêmicas, mas também em blogs vinculados a laboratórios e associações de pesquisa.