Torcida, gênero e trabalho dentro e fora de campo
Futebol não se resume ao que acontece nos noventa minutos. É rivalidade organizada, economia, memória de bairro, disputa por quem pode ocupar a arquibancada e o gramado. Antropólogas e sociólogos estudam o futebol porque nele aparecem, concentradas, questões que atravessam a sociedade inteira: pertencimento, violência, trabalho, gênero e sexualidade.
Luiz Henrique de Toledo analisou o hábito de colecionar os álbuns da Copa e as estratégias de marketing das empresas que os produzem. Ele olha para as relações de troca entre colecionadores e para o que se faz com as figurinhas além do álbum: o jogo de bafo, a decoração, a reutilização. Montar a coleção funciona como um trabalho de bricolagem, e a figurinha vira um símbolo iconoclástico.
O caso que ele estuda é o da Copa de 2014. Mesmo com a desaprovação pública do evento que aconteceu no Brasil, a venda de figurinhas permaneceu inalterada.
Bernardo Buarque de Hollanda, Jimmy Medeiros e Luigi Quevedo Bisso pesquisaram as torcidas organizadas de Botafogo, Flamengo e Fluminense no Maracanã e mostraram que virar torcedor organizado é parte de um rito de passagem.
Existe uma hierarquia interna. O novato entra por baixo: carrega bandeira, busca cerveja para os mais velhos, aceita brincadeiras humilhantes que testam sua lealdade. Aos poucos, se provar sua disposição, sobe de status e pode virar quem toca bumbo, quem coordena o canto, quem organiza o pelotão do bairro. Cada torcida organizada é um universo estratificado, com códigos, territórios e distinções finas que só se enxerga de dentro.
Jimmy Medeiros, Felipe Tavares Paes Lopes e Rosana da Câmara Teixeira ouviram 1.522 torcedores organizados de 80 clubes brasileiros e mostraram que a violência entre torcidas tem um código moral interno.
Para os torcedores ouvidos, existe diferença clara entre a briga "mano a mano", regida por regras não escritas como deixar o adversário caído se levantar, e o "ato de covardia", que envolve uso de arma de fogo ou emboscada. Entre os dados apresentados, 84% dos entrevistados reconhecem que a covardia já faz parte da cultura das torcidas brasileiras, mesmo condenando-a moralmente.
No país do futebol, as mulheres só foram permitidas por lei a jogar a partir de 1979. Mariane Pisani pesquisou, no mestrado, o time feminino do ADI/Foz, as Poderosas do Foz, que conquistaram destaque nacional em pouco tempo de trajetória.
A pesquisa acompanhou as trajetórias de migração das atletas em busca de clubes pagantes e os desafios do caminho: a distinção instável entre amador e profissional, o peso dos técnicos e empresários, o Bolsa Atleta como forma de sobrevivência e os preconceitos sobre corpo e sexualidade que pesam sobre quem escolhe o esporte.
João Victtor Gomes Varjão e Anderson Eduardo Araújo de Lima pesquisaram um time de futsal feminino em São Raimundo Nonato, no sertão do Piauí, e mostraram que os torneios funcionam como espaço de encontro para mulheres lésbicas e bissexuais numa cidade que não tem espaços LGBTQIAPN+.
Uma das jogadoras contou que o futebol a ensinou a se descobrir. Outra aprendeu a jogar bola justamente para poder frequentar os campeonatos e conhecer outras mulheres. Longe da vigilância urbana, depois do último jogo, o torneio no interior vira espaço de flerte, música, bebida e sociabilidade.